O Homem e o trabalho - a magia da mão


A exposição inaugural de longa duração contou, ao longo de 12 anos, ente agosto 2001 e março de 2013, a história do território que é hoje o concelho de Coruche. O percurso expositivo assentava no conceito de que o que nos faz humanos é a capacidade de realização e de intervenção a que chamamos trabalho. 


Conceptualmente encontrava-se estruturado numa relação dicotómica entre Homem/Natureza, Liberdade/ Determinismo, Progresso/Destino e Domínio/Respeito. Mas, acima de tudo, pretendia conduzir os visitantes a uma atitude reflexiva, conducente a um progresso sustentável. A um devir histórico em harmonia com a Natureza. Como tal, tratou-se de uma exposição estruturante no todo do projeto museológico deste Museu, e a partir da qual se puderam estabelecer relações de vária ordem com as exposições temporárias.


Caro visitante, permita-me que me dirija a si desta forma. Posso, assim, partilhar consigo algumas das interrogações que nos levaram a fazer esta exposição. Pare um segundo. Prevejo que a leitura deste texto esteja a ser feita antes de entrar. Pare, portanto. Ponha-se a si mesmo esta questão: o que nos faz humanos? Já tinha pensado nisso? Provavelmente não. E se já o fez que resposta encontrou? O facto de sermos detentores de pensamento? De linguagem... Sem dúvida que é um caminho de resposta. Mas aqui, nesta exposição, atrevemo-nos a propor e a seguir outra linha de abordagem. O que nos faz humanos é a capacidade de realização e de intervenção a que chamamos trabalho. Na verdade, se o homem é o único animal que ri, também é o único que trabalha. Que o mesmo é dizer, é o único que consegue afastar-se – tanto quanto possível – das determinações que a natureza impõe aos seres que a compõem. O homem, pelo trabalho, pode pensar-se livre. Senhor do seu destino.

Mas como pôde realizar essa liberdade? Que instrumento foi preciso possuir para que o trabalho se pudesse realizar? A mão. Mão que aliada ao pensamento faz a magia da humanidade. Crescemos assim: da mão ao machado, do machado ao arado, do arado à charrua, da charrua ao trator...


Esta exposição trata, também, caro visitante, do progresso. O trabalho fez-nos progredir. Avançar impondo a nossa liberdade em relação ao determinismo da natureza. Criámos cidades, impérios, instrumentos cada vez mais fabulosos. Criamos cada vez mais maravilha. Libertámo-nos tanto da natureza – ou julgamos que o fizemos – que a vemos já do alto da nossa magia. Da nossa capacidade de intervenção e manipulação.

Pensar-nos livres quer dizer sermos senhores do nosso destino. Ora, outra das interrogações que nos preocupou nesta exposição foi, precisamente, que destino deve ser o do homem? Que o mesmo é dizer, para onde nos leva a história? Para onde nos leva o progresso?

E se a resposta a esta questão fica em aberto – como não podia deixar de ser (o futuro é uma incógnita que se resolve a cada presente) –, atrevemo-nos a deixar pequenas pistas, vislumbres de um amanhã melhor. Necessariamente mais humano.
       
Esta exposição trata de Coruche. Da sua história. Da sua gente. Mas entende a história de Coruche como espelho da história humana. Assim, cada peça exposta traça um pedaço da identidade desta terra e destas gentes, mas simultaneamente representa um pedaço da própria identidade humana a constituir-se. Cada pedaço do Mundo é o Mundo todo.

Caro visitante, pense nestas palavras e percorra a exposição. Divirta-se. Conheça. Interrogue-se. Teremos feito o nosso papel.

Texto: Domingos Francisco

 

Atualizado em 27-04-2020