Homenagem ao Arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles

A equipa do Museu Municipal de Coruche presta saudosa homenagem ao Arquiteto Gonçalo Ribeiro Tellles, recordando a sua exposição (2005), mas também a mais bela viagem de comboio da sua infância, do Rossio à Charneca, contada pelo próprio e que marcaria o seu futuro... 

Começa assim...

“A viagem de comboio que melhor retenho na memória e que mais marcou a minha vida profissional era a que periodicamente realizava pelo Natal entre Lisboa e Coruche. Um menino que brincava na Urbana Avenida da Liberdade e aprendia a ler e a contar numa escola de bairro lisboeta sentia-se deslumbrado sempre que descobria um mundo totalmente diferente: o campo e o casarão que, apesar de situado na vila, respirava ruralidade, as folhas de milho da Lezíria, a perder de vista, e o misterioso montado, por vezes ainda charneca, onde se sentia, como fantasmas, o caminhar secreto das quadrilhas de malfeitores e os restos humanos deixados pela guerra civil e pela Patuleia. Montado que, na minha meninice, apenas já era só atravessado pelas varas de porcos charnequenhos e pelas vacas bravas cujos bezerros, mais tarde, após ferrados, toureados e amansados, se tornariam em prestáveis trabalhadores com nome próprio e acariciados pelo abegão. […]

Finalmente, chegávamos à estação de Coruche, onde nos esperava o Tio Chico, no velho Chandler que nos levava até casa. Todas as manhãs ouvia o comboio da manhã a atravessar as pontes do Sorraia e a apitar vitoriosamente tal feito, e lá seguia até Vendas Novas. O som mais elevado anunciava chuva. O pouca-terra, pouca-terra e o apito estridente já não se ouvem à passagem do comboio nas pontes, mas nunca mais os esqueci e ainda hoje os oiço na minha memória, marcando compassadamente o passar do tempo, fazendo reviver saudosas recordações.” [créditos em: pp. 61-63]

O Montado ficaria presente para sempre... Descanse em paz.

“Sabe o que é o mistério do montado? É a gente entrar, não conhecer os caminhos, e só ver troncos à frente. Tudo pode surgir e tudo acontece sem parar. No montado temos sempre pela frente o mistério. Também assim é a eternidade.”
Gonçalo Ribeiro Telles

In Revista n.º 2112, Expresso de 20 de Abril de 2013
In Janela do Montado: "Coruche: o Céu, a Terra e os Homens" (Foto: Nerve Design)