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Recensão Crítica

O Homem e o Trabalho - A Magia da Mão

Cristina Calais (coord.)
Catálogo da exposição permanente do Museu Municipal de Coruche, Coruche, 2003, 183 pp., ilustrado.

Exposição permanente ou temporária – vale pelo seu conteúdo, sem dúvida, mas também pela sua originalidade. Museu deixou de ser lugar de velharias, para se constituir em «casa de Musas», inspiradora de largos voos – que não se concebe musa estática, empedernida, sem golpe de asa a desvendar aléns... E dentro dessa originalidade cabe necessariamente o catálogo, vamos levar a exposição para a estante, onde amiúde revivemos objectos e, com seleccionados textos, aprendemos mais, saboreamos melhor, rasgamos horizontes...

Assim, no Museu Municipal de Coruche, o catálogo da sua exposição inaugural - O Homem e o Trabalho. A Magia da Mão.

Explica Cristina Calais: é a «história do concelho de Coruche,
que retrata os grandes períodos da história humana, sendo a magia
da mão o único elo entre os vários momentos». «Longa caminhada
no tempo», «gradual autonomização do Homem face à natureza»: desde os primeiros instrumentos e as primeiras construções à arte do lapicida e do estatuário de temática religiosa, ao tractor contemporâneo. Prolongamentos e obra da mão – que deve construir sem provocar rupturas irreparáveis.

E vamos por aí.

1.° A Mão e Mundo – a Descoberta. A abrir, um poema (diríamos):

A mão que se ergue no ar. Lenta. Indecisa.
Mão na descoberta de si.

Silvério Figueiredo faz «breve abordagem da origem e evolução da vida» (pp. 1121), em texto didáctico, didacticamente ilustrado por Nuno
dos Santos e acompanhado de utilíssimo glossário.

Eugenia Cunha, «Breve ensaio sobre a evolução humana» (p. 23-31):
as fases de um crescimento em transformação até ao homo sapiens sapiens. A Antropologia ao serviço da História.

Cristina Calais inicia o olhar para fora, para a obra, a mão que talha
a pedra e já consegue moldar metais (pp. 33-43). E vemos as imagens. E compreendemos melhor.

Raquel Vilaça levanta-nos o véu sobre a Idade do Bronze em terras
de Coruche: «as comunidades do Vale do Sorraia de há 3000 anos não ficaram à margem da circulação do metal e dos contactos com outros grupos humanos» (p. 45).

2.° A Mão e o Mundo – o Comércio

Parte-se, Chega-se. Arrisca-se.
Quer dizer: é-se plenamente homem.
O mundo descobre-se para lá do olhar.

Assim, num salpico de alma, como os farrapos brancos de neve que, desde ontem, resistem neste pinhal à beira da linha férrea.

Ana Margarida Arruda estudou o que da Idade do Ferro há no baixo vale do Tejo (pp. 47-49), que era, então, afinal, parte do «grande mar, herdeiro da transgressão flandriana (grande subida do nível das águas do mar, ocorrida em 5000 B.P.)», o estuário do Tejo. E dos homens dessa época, temos – diz-nos Cidália Duarte (p. 50) – um exemplo: alguns ossos «de uma criança, com cerca de três anos de idade», que, após
a cremação, foram depositados numa urna achada na Herdade
dos Pavões.

3.° A Mão e o Mundo – o Império

Eis-nos no tempo do linear e da medida.
Da regra. O mundo é já Império. Civilização.
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Roma é o centro. O Sol.

E Vasco Mantas conta-nos do que se sabe da presença romana
no território que é Coruche na actualidade (pp. 53-68). Enquadra essa história na história mais global da Lusitânia tagana; Scallabis;
a acessibilidade por via fluvial; ficaria na zona de Coruche a capital
dos Turduli Bardili a que vagamente se refere Plínio-o-Velho? Não há, que se conheçam, centros urbanos, mas terá sido intensa a ocupação rural – havia para isso boas condições naturais – sendo a agricultura
e a pecuária (mormente a criação de gado cavalar) actividades «fundamentais» ao tempo dos Romanos, entre os séculos l e V d.C. Dentre os objectos expostos destaque para a pedra de anel achada
em Águas Belas, que representa Minerva. E comenta Vasco Mantas:

«Em Coruche [...], onde uma etimologia fantasista fez introduzir
no brasão uma coruja, não deixará de ser interessante recordar
que Minerva, segundo o mito grego, deu aos homens a oliveira e que
a coruja lhe era consagrada. Que melhor símbolo para este Museu?»
(p. 57). As moedas, os materiais de construção, o comércio e o estilo
de vida e a economia rural – constituem partes de um breve ensaio
que se demora, no fim, sobre a condição humana, a pretexto da ara funerária dedicada por Victorina a seu extremoso marido, Menelau,
qual Isolda e Tristão, Pedro e Inês (p. 66).

4.° A Mão e Deus – a Transcendência

Este é o lugar do silêncio. A fala dos dedos.

Eloquente introdução à época medieval, trazida por Fernando Branco Correia (pp. 71-88), nos seus mais variados aspectos: arquitectónico, político (a Ordem de Avis e o poder municipal...), com a inevitável referência às sempre sintomáticas cláusulas de teor mercantil
do foral manuelino.

José António Falcão, na sequência da fértil investigação que vem efectuando, mormente a partir de Beja, aborda, através do património religioso do concelho, a influência e as manifestações do sagrado
no quotidiano (pp. 91-126). A estatuária singular, a «Erra Velha», pia
de água benta de peanha pétrea esculpida em jeito de velha; esplendorosa, a custódia da bênção dos campos, trabalho português
de meados do século XVIII; expressivo o rosto de Cristo morto, crucifixo do último quartel do século XVI, pertença da Santa Casa da Misericórdia local; rica de significado histórico a imagem de Nossa Senhora
do Pópulo, uma devoção muito do carinho da rainha D. Leonor,
que escolheu a Senhora «para protectora da igreja do hospital
das Caldas da Rainha» (p. 108); ainda da Misericórdia, o ingénuo conjunto de S. Ana, a Virgem e o Menino, escultura de calcário datável do século XV. E termina-se com a magnífica azulejaria, onde avulta
o frontal de altar, do 3.° quartel do século XVII, com S. Pedro
no medalhão central, rodeado de surpreendente fauna, a lembrar
paraísos terreais…

5.° A Mão e a Máquina – o Domínio

O homem estende a mão.
Diz: posso, tenho, pertence-me.

Inicia-nos Ana Firmino (pp. 129-139) na «magia do engenho»:

«Oh que matos pera pão!
Que vales pera açafrão
E canas açucaradas!» (p. 132).

E na «arte da paisagem» – a necessária abordagem geográfica
e os novos desafios. Terras a pedir braços, os humanos e os outros.
Por isso, Joana Marçal estuda a mecanização da agricultura (pp. 141-148) e Maria Rosa Geadas Lopes «os sistemas agrícolas e as suas consequências no ambiente» (pp. 151-155), no apelo a uma agricultura biológica, a alternativa desejável.

6.° A Mão e o Futuro – a Lição dos Contrastes

O homem pára e olha. Olha com o olhar
de quem penetra profundo no Mundo.

E se as suas mãos «resplandecem de poder», que futuro terá o trabalho «na era da crise global do ambiente»? (Viriato Soromenho-Marques, pp. 157-165). Aplicáveis serão aqui os «princípios estratégicos para uma sustentabilidade global»?

Afinal, percorremos com o Homem a Natureza – e o que é a Natureza? (Domingos Francisco, pp. 167-173). Um toque de mágica? Uma criação divina? O brinquedo de Deus? Ou, de preferência, o apelo a uma partilha, pois a terra «vale por ser terra», o Sol «vale por ser sol»...

162 peças estão identificadas, por fim, no catálogo propriamente dito (pp. 175183).

Terminamos a viagem. E sentimos, de imediato, a vontade de voltar
ao princípio, para melhor consciencializarmos tudo. Ao princípio
do catálogo perfeito, ao rever da exposição sugestiva. À meditação sobre o verdadeiro significado dos traços da nossa mão.

José d'Encarnação, in Museal, revista do Museu Municipal de Faro, n.º 1 (Maio 2006), pp. 112-115.
Actualizado em Sexta, 15 Janeiro 2010 10:10