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Recensão Crítica

O Caminho de Ferro em Coruche

Exposição Temporária. Catálogo, (Coord. Domingos Francisco), Coruche, Museu Municipal de Coruche, 2004,
100 páginas, ilustrado.

A regularidade e a qualidade das iniciativas concretizadas pelo jovem Museu Municipal de Coruche, reflexo da dinâmica equipa que o anima
e de uma política cultural correctamente compreendida e assumida pela autarquia local, merecem público reconhecimento e justificada divulgação. O catálogo da exposição comemorativa da inauguração oficial do caminho de ferro em Coruche é um excelente exemplo do que dissemos, ao mesmo tempo que realça a vantagem de preservar
o efémero, próprio de uma exposição temporária, transformando-o num instrumento de trabalho, como é a publicação que aqui recenseamos.

Vivemos um tempo dúbio, no qual a obsessão da velocidade
e da rentabilidade ameaça subverter a escala humana e eliminar definitivamente qualquer relação entre o útil e o agradável.
O desaparecimento de linhas férreas e a transformação dos passageiros em utentes resultam directamente desta mundividência utilitarista.
Não se veja nesta reflexão uma recusa do progresso, de que os caminhos de ferro foram um símbolo poderoso e multifacetado,
mas apenas uma chamada de atenção para certas realidades que não podem ser esquecidas, em parte motivada pela nostalgia, palavra
que imediatamente invoca viagens e regresso às origens, de muitas deslocações em caminho de ferro, parte delas em linhas secundárias como a que serve, há um século, a vila ribatejana de Coruche.

O volume tem excelente aspecto gráfico, não se limitando a enumerar
as peças reunidas na exposição, apoiada por numerosas entidades.
O Catálogo propriamente dito é precedido por uma série de contributos redigidos para a ocasião e outros anteriormente publicados, agrupados nas seguintes secções: História; Estratégia; Memória; Futuro; Anexos. As ilustrações, seleccionadas com oportunidade, pancromáticas
e coloridas, são de boa qualidade e razoável quantidade, ainda que,
num ou noutro caso, sejam pequenas. Contribuem eficazmente para
a compreensão do texto, aliando da melhor forma a imagem e a palavra. Apenas em relação aos mapas reproduzidos (pp. 34, 44) temos que lamentar a sua muito reduzida dimensão, pois torna difícil a leitura dos mesmos, sobretudo para quem não conhecer a região em causa, tanto mais que já lá vai o tempo em que decorávamos os percursos de linhas e ramais ferroviários.

O volume abre com um texto do Dr. Dionísio Mendes, presidente
da edilidade coruchense, cuja tónica se centra, muito naturalmente,
no problema das acessibilidades ao vale do Sorraia (p. 7). A secção História inicia-se com duas contribuições de Luís Batalha, intituladas respectivamente Os caminhos de ferro em Portugal (pp. 9-15) e Coruche – De Setil a Vendas Novas (pp. 17-25), as quais constituem sínteses bem conseguidas. No primeiro artigo trata das condições da introdução do caminho de ferro em Portugal, acontecimento que não deixou de suscitar reticências, tanto como o plano de renovação da rede viária,
tão evidentes em escritos de Almeida Garrett ou de Júlio Dinis, enquanto no segundo aborda a construção da linha férrea entre Setil e Vendas Novas, caracterizada por algumas dificuldades técnicas. Não deixa
de ser significativo que, numa época considerada de indisciplinada decadência, caso dos anos derradeiros da Monarquia, a obra ficou pronta um ano antes do prazo previsto (p. 21), o que hoje é pouco habitual. É certo que nela chegaram a trabalhar 5000 operários.

O texto Coruche e as acessibilidades (pp. 27-32) foi escrito quase há meio século, por João Gonçalves, constituindo um documento do maior interesse para caracterizar o que eram as dificuldades de comunicação, mesmo com povoações pouco afastadas da capital, como Coruche,
e qual o verdadeiro significado da existência do caminho de ferro nos anos cinquenta do século passado. Uma referência muito curiosa,
a propósito das evoluções de um numeroso grupo de campinos à passagem do comboio inaugural na estação de Coruche, comboio
no qual seguia a Família Real e numerosas individualidades, merece atenção, pois parece pôr em causa a ideia de que parte do trajo
de campino, o barrete verde e a jaqueta encarnada, remonta à época
da Exposição do Mundo Português (p. 29). Será assim? Outro aspecto que queremos destacar é o da importância do tráfico fluvial no Sorraia, ainda em meados do século XX, bom exemplo de um sistema
de transporte integrado, funcionando os portos fluviais como interface
de comunicações (pp. 31-32).

Na secção Estratégia encontramos dois artigos. No primeiro, Gilberto Gomes escreveu sobre A linha do Setil a Vendas Novas. 1904-2004
(pp. 34-45), traçando um quadro da evolução do funcionamento da linha,
na verdade ramal, desde o seu estabelecimento, focando em especial
as suas limitações e potencialidades, sobretudo no que respeita ao tráfico nacional Norte/Sul e movimento regional. Chama a atenção,
o que não é menos importante, para a necessidade de se efectuarem estudos sobre as diferentes linhas férreas, como esta, uma vez que não existem. Parece-nos um excelente campo de investigação, tanto para
a história económica e social, como para a arqueologia industrial.

Ainda sobre a Linha de Setil a Vendas Novas (pp. 47-53), agora mais sobre aspectos técnicos da mesma, nomeadamente infra-estruturas, exploração comercial e material circulante, elaborou José da Silva
o segundo texto, realista e claro, sem esquecer as causas da decadência da linha (p. 51), parte das quais se vão repetindo noutras linhas e ramais, como é o caso da prioridade atribuída ao transporte rodoviário. Não vale a pena invocar a fraca densidade populacional
da zona atravessada pela linha Setil-Vendas Novas, pois a Linha
de Oeste, por exemplo, conhece o mesmo declínio acentuado,
em particular no transporte de passageiros. Fazemos aqui uma chamada de atenção, motivada pelo nosso interesse pelo património arqueológico industrial, para a formidável ponte de ferro Rainha D. Amélia, uma das maiores da Península Ibérica (pp. 47-48), desactivada em 1980. Qual
é o seu estado actual? No que se refere ao material circulante, referido no artigo com pormenor, gostaríamos de encontrar indicação da origem das locomotivas e anos de entrada em funcionamento, o que contribuiria para esclarecer os não especialistas.

A secção Memória conta com dois textos de grande poder evocativo,
No cais da memória (pp. 55-59), de Isabel Chaparro, e Do Rossio à Charneca, de Gonçalo Ribeiro Telles (pp. 61-63), este último publicado anteriormente pelo jornal Expresso. São dois relatos que exprimem, com alguma emoção, como é natural, recordações de infância, evocando as velhas viagens, intermináveis não apenas pela saudade, antes pelo reencontro. Este aspecto mais intimista não é dos menores contributos desta feliz publicação, tanto mais que faculta uma dupla visão, digamos interior e exterior, do funcionamento da linha in illo tempore.

O artigo de Manuel Tão integra a secção Futuro, intitulando-se, oportunamente, Linha de Vendas Novas. Um olhar sobre o futuro (pp. 65-69). O autor, especialista em economia de transportes, chama a atenção para a importância da linha de Vendas Novas como traço de união entre o sistema ferroviário do Sul e o do Norte, sem esquecer a questão
da falta de passageiros, recorrente em vários textos do catálogo, situação que considera poder ser alterada se a ligação entre Setil
e Coruche passar a contar com material razoável e horários viáveis. Esta questão repete-se em muitas outras linhas secundárias, mas no caso
de Coruche a relativa proximidade da capital poderá constituir um factor decisivo de desenvolvimento, se a estratégia não for a de criar mais
um dormitório suburbano. Ficamos também a saber que o último Plano Ferroviário Nacional remonta a 1927, não tendo sido totalmente executado (p. 68). Congratulamo-nos particularmente com
o reconhecimento explícito da importância futura do transporte ferroviário articulado com o transporte marítimo (p. 69), fundamental para
o nosso país.

Os Anexos voltam a transmitir duas distintas visões sociais da mesma realidade, uma a nível do grupo social decisório, através de documentos camarários, onde encontramos nomes ribatejanos bem conhecidos,
e através do testemunho oral de um antigo trabalhador ferroviário e sua esposa. No primeiro caso, Raquel Marques escreveu sobre O caminho de ferro nas actas da Câmara (pp. 71-84), informando-nos a partir
de documentos contemporâneos oficiais dos sentimentos, alguns
de reserva (pp. 78, 82), suscitados pela inauguração do caminho de ferro e visita da Família Real. É muito curiosa a nota respeitante ao bodo
a duzentos pobres, acto vulgar na época mas que a autora sentiu necessidade de explicar ao leitor actual (p. 71). Nas páginas
da Ilustração Portugueza, por exemplo, encontramos com frequência fotos alusivas a estas distribuições caritativas, exemplares das desigualdades sociais e ilustrativas dos francos comentários de Orlando Ribeiro sobre as características da pobreza em Portugal. A Entrevista, conduzida por Luís Batalha e Eugénia Dias, a Augusto Marques
e Lurdes Silva (pp. 85-93), constitui um documento vivo, memória
de experiências e vivências que contribuem para um melhor conhecimento de múltiplos aspectos do trabalho dos ferroviários
e da vida do caminho de ferro enquanto instrumento de comunicação
e de coesão social noutros tempos.

O Catálogo, da autoria de Dulce Patarra (pp. 94-97), embora se limite
a 25 peças, em parte cedidas por entidades públicas e por particulares, constitui um repositório de muito interesse, sobretudo para os interessados em arqueologia industrial e história social. Para os leigos, as fichas concebidas com clareza e simplicidade, representam um guia bem ajustado à finalidade da exposição e à necessidade de uma informação básica, acessível ao público potencial da mesma. A peça
n.° 13, um telefone de via marca Ericson (pp. 54, 96), uma das mais interessantes da exposição, é referida como de metal e plástico. Julgamos que, atendendo à época de fabrico não poderia ter sido utilizado o plástico, devendo entenderse por baquelita.

A exposição comemorativa da inauguração do Ramal de Setil a Vendas Novas e o catálogo que a apoiou constituem exemplos do interesse crescente pela história local, tão rica de possibilidades de investigação
e caminho seguro para uma melhor compreensão do todo nacional. Contribuiu também para realçar o impacte do acesso ao caminho de ferro no vale do Sorraia, quebrando uma situação de pesado isolamento, não obstante o reconhecido papel de Coruche nas comunicações anteriores à Revolução Industrial. Um romance recente de Mário Ventura, cujo cenário é uma pequena vila e a sua estação de caminho de ferro
em 1910, vila que bem podia ser Coruche, descreve de forma viva
a importância da via férrea e do telégrafo no início do século XX. Por isso mesmo o Museu Municipal de Coruche é merecedor, por esta iniciativa, de elogiosa referência e permanente incentivo.

Num tempo de triunfo do transporte rodoviário, apesar de poluidor
e detentor de fraca capacidade de carga, quando quase se tornou obrigatória a posse de um veículo automóvel, os caminhos de ferro têm conhecido redobradas dificuldades. É com tristeza que assistimos
ao encerramento de linhas e ao fecho de estações, por razões que
se prendem muito mais com o presente do que com o futuro, desenvolvendo uma inadmissível concepção dualista do país. Gostamos de viajar de comboio, desde sempre, e recordamos muitas vezes viagens de outros tempos, em composições com máquinas a vapor e carruagens alemãs provenientes das indemnizações da I Guerra Mundial ou em automotoras Nohab, evocadas neste catálogo. Que nos seja permitido lembrar o passado, tão presente nesta exposição, com longas viagens estivais entre Évora e Lisboa ou Tavira, sentido o cheiro do creosote,
o vibrar dos fios telefónicos junto à via e o canto das cigarras quando
o comboio se detinha nalgum apeadeiro ou pequena estação sem povoação à vista, transmitindo-nos a sensação de que, para além
do cais, começava outro mundo, isolado, marginal, com o qual só
o comboio, tal como um navio, podia comunicar.

As exposições invocam e pretendem ilustrar o passado, estimulando
a memória ou as suas representações. Por isso nos sentimos tentados a elaborar esta recensão crítica, porque o tema envolve história, tecnologia, memória e mito, pois o caminho de ferro também envolve mito, que pode ser o mito imperial do Transiberiano ou o dos vagabundos americanos deslocando-se nos vagões dos enormes comboios de costa a costa. O caminho de ferro mudou Portugal, constituindo um indiscutível factor de progresso, não só pelas facilidades que introduziu, a nível
da circulação de pessoas e de mercadorias, mas por ter alterado, definitivamente, a concepção de tempo e de espaço. Faz parte integrante da nossa história, não havendo nada mais dramático
que a história sem futuro, sobretudo quando reflexo de alterações ditadas por concepções alheias ao bom senso e aos interesses essenciais da comunidade. Por isso, terminamos desejando que,
daqui a cem anos, o Museu Municipal de Coruche repita o tema desta exposição, com mais história e mais memória.

Vasco Gil Mantas, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, in Revista Portuguesa de História, t. XXXVII (2005), pp. 467-472.